quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Pintor

Cambaleava pela noite escura. Em sua cabeça voavam frenéticas borboletas delirantes em borbulhas destiladas. Descia a ladeira da Misericórdia como quem já não sabe de si. Não buscava o caminho de casa, pois a ladeira era seu mundo. As mulheres de vida estranha que por ali desfilavam as suas cicatrizes, ofereciam-lhe uma noite como uma lambida de gato: morna e áspera. Mas nenhum prazer soturno e barato lhe extraíria da alma aquelas cores.
As borboletas o seguiam desde tempos outros, daqueles com ponteiros e marcados. Elas voavam e seu bater de asas trazia a lembrança dela e era por ela que ele descia a ladeira.
Ela existia em suas frestas mais profundas, corroídas de fungos. Ela habitava nas cavernas escondidas e gostava de se mostrar nua nas noites de lua minguante. E aquela noite era uma noite de lua minguante.
Ela insistia em estar ali. E por ser lua minguante, a noite estava escancaradamente escura. Carolina vinha. Ela lhe contava os sabores coloridos dos seus dias. Falava da beleza de sua filha, Claudinha, de dois anos e do mais novo, Antonio, de três meses. Ela os pintava de palavras, com as mesmas tintas que um dia ele a fez oléo sobre tela.
Não era fácil descer aquela ladeira com carolina nua em seus delírios.
Foi na cidade alta que ele a encontrou, depois de muitas vidas passadas. Foi um encontro trôpego e por isso desequilibrado. Ela lhe surgiu aos olhos como que um relâmpago e lhe sorriu o seu sorriso costumeiro, mas agora com ares de senhora de si. Tal foi a rapidez daquele instante que Carlos não pode perceber o seu andar de felina madura. Enquanto ela lhe contava os seus novos dias, Carlos a via entre cores de Klint. E quanto mais a voz dela lhe circundava docemente forte, as cores iam se aprofundavam e o real insistia em estragar a arte que nascia dos dois. Em longos e insuportáveis poucos minutos, ela revirava a poeira dele e lhe passava na cara a sua infelicidade. Ela se foi da mesma forma como veio e lhe causou um incaçulável abalo císmico na sua alma de pintor vadio.
Daí então, o caminho único era o bar. Desde que Carolina se foi de sua vida, este era o seu divã. Muito embora estivesse buscando se livrar dos vícios do corpo e do copo, Carlos não podia conter as suas pernas trêmulas de realidade. Alí, ele bebeu Carolina. Gota à gota. Embriagou-se de seus contornos mais escondidos e rogou a Morte pela sua aparição. Pagou o que devia e juntou o que restava de si.
A ladeira era o que conhecia e por aí foi. Sua alma despencava à cada passo. Entre tantos sussurros de ofertas e olhares nublados, Carlos viu Marcelo a sair de uma das portas daqueles quartos de noites furtivas. Aquele rosto havia lhe aparecido à tarde, mas aonde? Buscou no que lhe restava de consciência a hora da aparição daquela figura e foi aí que um instante de lucidez lhe tomou de assalto. Marcelo estava nas palavras de Carolina. Ela o pintou para Carlos. Era ele quem lhe roubava os sonhos. E num relance mágico, Carlos avançou como um cão sem dono no pescoço de Marcelo. As mulheres soltavam risos de Padilhas pelo ar enquanto os dois rolavam ladeira à baixo. Marcelo não buscava explicação, posto que acreditava que a vida se vingava. Os homens do cais separaram os cães. Mas os risos se transformaram em gritos de horror. Naquela noite minguantemente escura, alguma coisa ficava pelo chão... carlos levantou-se e continuou sua descida e já não sabia se havia sido tudo delírio causado pelas borboletas insanas de sua cabeça, inclusive aquele golpe de pincel no meio da gargante de Marcelo.

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